sexta-feira, novembro 25, 2011

Desventura

Comecei, num ato vil, a procurar todas as provas daquela ensandecida decisão. Procurei em todos os lugares: nos livros velhos que guardava num canto do quarto, nos papéis rabiscados por toda parte, nuns quantos desenhos pregados na parede. Procurei em mim mesma, nos meus pensamentos mais recônditos, nas lembranças mais reconfortantes, nos sentidos mais sinceros, nos meus olhos marejados, na minha pele calejada. Eu sabia que só iria encontrar todas as razões em um só lugar, mas, a virilidade da minha busca fazia com desviasse a rota, fosse por todos os outros caminhos tortuosos, subindo com submissão as pedras mais perigosas e arriscando todas as minhas feridas abertas nos perigos dessa procura. Eu chorei. Primeiro numa discrição que não era minha, depois copiosamente. E chovia copiosamente todos aqueles dias. Chovia tanto, chovia em mim.
Procurei tantas vezes disfarçar meus medos e minhas inseguranças dentro de um sem-fim de outras desculpas e outras máscaras que nem dei por mim quando cai doente, sem vida e sem ânimo para nada. Pois eu sempre deixei que segurassem as rédeas de minha existência. Que trilhassem meus caminhos, os quais eu só tinha o trabalho de seguir, cabisbaixa e muda até o fim. Era tudo perfeitinho, eu tinha um paraíso para fingir que era meu. Pensei morrer sendo uma só pessoa, sem variações e sem excessos, na calmaria de uma existência não anunciada, como um fantasma a transitar entre outros fantasmas cegos, outras cegueiras da vida. Um dia me soltaram no mundo, colocaram em minhas mãos o controle de tudo e nem perceberam que isso era a coisa mais incerta a se fazer. Era um disparate.
Evoquei toda a parcimônia que eu tinha em mim nos primeiros anos conscientes de minha vida. Evoquei também todos os fantasmas que carregava comigo, alguns – loucura minha – pensava já estarem enterrados, sepultados e esquecidos, mas apareceram com tanta força e tanto tato que nem pareciam fantasmas – e sim monstros suntuosos a ocupar todos os cômodos da minha pequena casa. Era tudo uma balburdia só. Eu não tinha horários, nem hábitos. Vi, uma a uma, todas as paredes serem cobertas com minha demência. Eu buscava por não sei o que, não sei onde ou sequer sabia a finalidade de tal propósito. Mas era implacável minha determinação de encontrar onde quer que fosse – e que fosse logo.
Vi-me doente algumas vezes, vi-me suplicante, vi-me entregue.
Depois, como a calmaria que vem depois de uma briga descomunal, juntei os cacos da minha vida. Todos eles. Não tinha pretensão de consertar o que quer que fosse. Só queria juntar tudo, jogar no lixo e possivelmente começar tudo de novo. Começar qualquer coisa. Mas, tão recém havia começado a chacoalhar os panos gasto dos meus dias, percebi que era uma tentativa descabida que ia dar em nada outra vez. Eram claro meus passos em círculos, numa montanha-russa de sentimentos intensos, ora tão disposta, ora tão sádica e impotente. Sabia, tão impregnadamente, que uma hora ou outra eu voltaria com todas as mais delirantes forças para a minha busca última.
Foi ai que me entreguei. Eu estava tão solitária e tão infeliz que não tinha como não sucumbir de vez. Voltei ao aspecto inicial de doida varrida sem rumo e sem razão. Joguei fora os resquícios de minhas tentativas frustradas de mudança. Eu era imutável. E ao mesmo tempo um ser tão imprevisível quanto as chuvas de outubro, como os detalhes no final de uma história triste, tão incerta que nem mesmo eu me dava conta do que me propunha a fazer.
Tanto, que tranquei definitivamente a porta da minha casa, limpei tudo tranquilamente, arrumei cada palmo da casa com a obstinação de um monge. Depois juntei todos os pedaços de papéis com escritos meus, alguns cadernos velhos, algumas fotos gastas, coloquei tudo dentro de um pequeno recipiente de metal e queimei  uma a uma - todas as minhas vísceras. Não deixei rastros nesse mundo, não propaguei minha tão santificada ignorância. Morreria assim.
E morri, num segundo mal pensado, mal digerido, num corte mal feito, sujando as paredes limpas de sangue e completando enfim a saga irremediável em que eu estava. Buscava o fim, morri com a incógnita eterna impregnada nos meus olhos abertos fitando o teto: se eu tentasse um pouco mais e se eu desistisse um pouco menos...

Nenhum comentário:

Postar um comentário